27.1.09

Margens vizinhas de mãos dadas
PONTE SEIXAL/BARREIRO DECRETADA “UTILIDADE PÚBLICA”


20 anos depois da ponte Barreiro/ Seixal estar incluída nos Planos Directores Municipais (PDMs), a obra foi considerada “utilidade pública” e tem agora pernas para andar.

A ambição não é de agora, mas de há mais de 2 décadas atrás, altura em que duas das Indústrias que mais contribuíram para a fixação de habitantes na Margem Sul – Siderurgia Nacional, no Seixal e Quimigal, no Barreiro – mantinham relações directas e se interligavam através de uma ponte ferroviária.
Muitas são as teses que se referem à queda dessa infra-estrutura que viria a separar as terras vizinhas, por entre as quais nadavam roazes e embarcações e cuja travessia se passou a fazer através de uma outra ponte, localizada em Coina, totalizando um percurso de mais de 20 quilómetros e bastante tempo dispendido, dada a afluência de trânsito nos locais.
Passaram-se as décadas, saltou-se de século, mudou-se de milénio… No início desta semana, o Governo publicou um despacho em Diário da República que declara a utilidade pública da Estrada Regional (ER) 10 que inclui a travessia do rio Coina e que faz parte do plano da Ligação Ferroviária de Alta Velocidade entre Lisboa e a Moita, incluindo a Terceira Travessia do Tejo em Lisboa (TTT), no Corredor Chelas–Barreiro.

Arco Ribeirinho requalificado

Segundo o Estudo de Impacto Ambiental encomendado pela RAVE (Rede Ferroviária de Alta Velocidade), a ponte terá uma extensão de 4,6 km e vai situar-se na zona mais estreita do rio, com pouco mais de 500 metros, tendo acesso directo ao IC21.
Esta nova componente rodoviária na TTT vem assim assegurar a acessibilidade rodoviária ao denominado Corredor Central da Margem Sul (Barreiro/ Seixal/ Moita) e é o primeiro que não tem ligação directa à margem Norte do Rio Tejo.
O Estudo referiu-se ainda à eventual necessidade de instalação de uma praça de portagem tradicional, mas que possa vir a ser dispensada caso seja implementado um sistema de cobrança totalmente automático, tal como a Via Verde ou o Via Card.
De acordo com o projecto, os automobilistas não poderão ultrapassar a velocidade de 80 km/h, sendo que nas zonas urbanas os limites serão mais baixos, condicionados aos actualmente existentes.
Dada a proximidade da área de intervenção da Ligação Rodoviária Seixal/ Barreiro ao sapal do Rio Coina, os responsáveis pelo estudo sugeriram a implementação de um plano de reabilitação ambiental da área perspectivando, a longo prazo, a criação de uma maior disponibilidade de habitats e de zonas de alimentação para as aves aquáticas.
Tal como o presidente da Câmara do Barreiro, Carlos Humberto, salientou, “a importância da concretização de um projecto que irá requalificar o arco ribeirinho da Margem Sul do Tejo”, até porque “poderá contribuir de forma positiva, para acelerar os planos de reconversão previstos para as áreas industriais do Barreiro e Seixal, que ao longo dos anos referenciam negativamente a imagem ribeirinha”, lê-se no Estudo.
Para além de representar a concretização de um sonho antigo, a obra é já alvo de alguma contradição.
Conforme o próprio Estudo, a obra irá ter “impactes negativos significativos em todos os locais”. Diz o documento que para os minimizar há que investir na adopção de medidas para reduzir os níveis sonoros, “mediante interposição de barreiras acústicas e aumento do isolamento sonoro de fachada” e que após a aplicação destas medidas, os efeitos nocivos “passarão a ser pouco significativos”.
Outra das visões negativas refere-se ao facto desta nova ponte se aproximar da antiga Siderurgia, onde se acumulam resíduos cuja composição e efeitos serão alegadamente desconhecidos.

Ponte nova, população rejuvenescida

No entender dos analistas, a infra-estrutura vem melhorar a qualidade de vida da população, nomeadamente a nível de acessibilidades, pois prevêem-se “reduções significativas de tempo de viagem, quer em transporte individual, quer em transporte colectivo”, sendo esperado um “descongestionamento sensível nos principais acessos rodoviários às actuais travessias do Tejo”.
Lê-se no documento que “os principais benefícios ao nível local são esperados para os concelhos e em particular para as freguesias” vizinhas, já que a alteração “promoverá uma maior atractividade destes locais para a fixação de população residente em idade activa, contribuindo também para um rejuvenescimento da população”.
Outra ideia confirmada refere-se à criação de postos de trabalho directos, indirectos e induzidos por via da construção da TTT e que terá impactes económicos e sociais positivos nas economias locais.
Uma infra-estrutura essencial para a população que há muito tem de se fazer às filas para chegar ao Concelho vizinho e para conquistar novas empresas, “contribuindo fortemente para a dinamização da economia local e, por sua vez, da economia de toda a margem Sul do Rio Tejo, conduzindo a uma atenuação significativa dos desequilíbrios e assimetrias da AML”.Os defensores da ideia não têm dúvidas, “o presente projecto contribuirá para promover a criação de um sistema de transportes mais eficiente, que servirá a população com mais rapidez, mais qualidade e maior segurança, contribuindo para alcançar um maior equilíbrio entre os modos de transporte disponíveis, numa das zonas de maior densidade populacional do País e nas deslocações internacionais”.


Jornal do Seixal, edição nº 57, 24 de Janeiro de 2009

19.5.08

Presidente da Junta da Quinta do Conde em lista independente
AUGUSTO DUARTE CANDIDATO À CÂMARA MUNICIPAL

O actual presidente da Junta de Freguesia da Quinta do Conde vai candidatar-se à presidência da Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) nas Eleições Autárquicas de 2009.
Em entrevista ao Nova Morada, o presidente afirmou estar já a recolher assinaturas para viabilizar a sua candidatura agregada a um movimento independente, ao contrário do que aconteceu nos últimos anos, em que segurou a pasta do Partido Socialista (PS).

O senhor Augusto Duarte acabou de fundar uma Associação Cívica que tem como principal motivo a candidatura às Eleições Autárquicas. Confirma?
Confirmo. Fundámos o Movimento Cívico por Sesimbra, o que já foi decidido há algum tempo. As pessoas da Quinta do Conde têm-me vindo a dar a sugestão, porque eu conheço bem a Freguesia e a política do Concelho, que a meu ver é pouco acreditada pela população. As coisas estão a avançar, preciso de 4 mil e quinhentas assinaturas, só da Quinta do Conde já temos 75 membros e mais umas mil assinaturas.

Até à data tem concorrido com o PS. Este Movimento é constituído por elementos de outras correntes políticas?
Sim, este Movimento foi criado por diversas pessoas, não só para concorrer às Eleições Autárquicas como também para fazer um trabalho com a juventude e com as pessoas mais carenciadas. Já temos a escritura e já estamos no terreno. Temos pessoas de vários partidos mas quero aqui afirmar que não queremos que tenham tido problemas com a sociedade, não vou dizer quem…

Refere-se a pessoas condenadas?
Sim, as pessoas condenadas no Concelho e nas Freguesias não vão fazer parte, apesar de virem ter comigo e de as conhecer bem, essas pessoas são rejeitadas.

Pode-nos avançar o nome de outros elementos que fazem parte do Movimento?
Posso avançar alguns membros… Eu sou candidato à Câmara mas não vou indicar os candidatos às Juntas de Freguesia. Tenho várias pessoas comigo, o senhor Narciso do Celeiro da Quinta, a Teresa, o advogado Badalão, engenheiros, pedreiros, arquitectos, médicos, tenho diversos apoiantes e candidatos para as Juntas, Câmara e Assembleia Municipal.

O senhor é o cabeça de lista…
Sim, sou cabeça de lista e vou-me candidatar à Câmara Municipal de Sesimbra. Já tenho um professor na Escola Básica Integrada de Santana, cujo nome não vou divulgar, que será o segundo. O terceiro é da Quinta do Conde, o quarto será do Castelo e o quinto da Quinta do Conde, isto, candidatos à CMS.
Já temos uma pessoa para concorrer à presidência da Junta de Freguesia da Quinta do Conde mas não quero avançar quem é porque vamos reunir na nossa sede – na Avenida 1º de Maio – dentro de quinze dias para então acertar os detalhes. Já temos tudo preparado para abrir o espaço e aí sim, vamos debater quem irá concorrer a cada uma das Freguesias.

Com que apoios já contam?
Esta ideia originou uma movimentação muito grande, já saiu na Comunicação Social e vamos agora criar um site (na internet) que será divulgado atempadamente e onde iremos solicitar o apoio e a participação dos jovens.

O Movimento está a apostar nos mais jovens?
Sim, temos ido às escolas falar com os jovens que já têm 17 anos e que para o ano já serão recenseados. Qual foi o meu espanto ao ver que a juventude está a aderir muito bem!

Que projectos é que têm?
O nosso objectivo é para o Concelho, não só para a Quinta do Conde. Temos de olhar para o global, se bem que esta Freguesia seja olhada de lado e mereça muito mais. Tivemos há pouco uma reunião onde concluímos que a Quinta do Conde tem mais de 27 mil habitantes dos quais só 17 mil estão recenseadas. Os nossos jovens, dos 12 aos 13 anos, não têm atractivos, o que me deixa triste. Já aqui estou há 12 anos, vou no terceiro mandato e vejo que os jovens têm de sair daqui para outras Freguesias, para ir à discoteca.
Queremos um pólo desportivo com várias valências para que os jovens se fixem na Freguesia. Esse é o nosso principal projecto e não me venham dizer que a Câmara de Sesimbra é pobre, a CMS tem mais de 50 milhões de euros de Orçamento, por isso não é muito pobre. Conheço outras, a nível nacional, bem mais pobres.
Temos de criar condições para o Turismo e não fazer milhões de euros em gastos só na distribuição de propaganda política. A CMS tem o direito de fazer um boletim, escrever nos jornais, mas distribuir carradas de papéis acerca das festas pequenas, isso já está ultrapassado!
Temos de empregar as verbas mas não gastar o dinheiro da população.
A Quinta do Conde também tem vindo a ser castigada pelos políticos, desde 1974 esta é a primeira vez que temos um candidato à Câmara. Nem o PS, nem a CDU (Coligação Democrática Unitária), nem o PSD (Partido Social Democrata) apresentaram um candidato da Freguesia porque não querem perder o poder que está instituído. Desta vez, Sesimbra e os quintacondenses vão ver uma pessoa desta Freguesia a concorrer e de certeza que vão ficar do nosso lado!
Nós vamos lançar um documento com algumas das nossas propostas para o Concelho e começamos pela Quinta do Conde. Este não é o programa eleitoral, porque ainda é muito cedo, mas vamos reunir e apresentar algumas ideias.
O que vamos prometer é o que vamos cumprir e nestes anos, tudo o que foi colocado no orçamento desta Junta de Freguesia foi cumprido. Tenho orgulho de dizer que esta é uma das poucas freguesias do Distrito de Setúbal que vai ficar com uma verba para pagar ordenados e pequenas dívidas e que fique claro que quando aqui cheguei não havia sequer ordenado para as funcionárias.

Nova Morada, edição nº 346, 2 Maio de 2008

António Ratinho
O MAR COMO VIDA, COMO MORTE, SUSTENTO, ALIMENTO, REVOLTA…

“Os quadros e exposições do António Ratinho não se deixam limitar ao óbvio: lama, lacre, areia, anzóis, bóias de vidro, cabaças, escamas de peixe, espinhas, lixo da borda d’água ou mesmo as insólitas embalagens campânulas dos telemóveis, nada do que pode ajudar a exprimir o imaginário do pintor é desperdiçado ou desprezado”. A descrição do professor e economista João Aldeia transmite o sentimento que nos é passado pela obra de Ratinho.

13 anos volvidos sobre o dia em que a tragédia se abateu sobre muitas famílias sesimbrenses e em que um mar furioso resgatou a vida de pescadores locais, o Senhor Jesus das Chagas permanece um ícone, uma figura central e de devoção que há centenas de anos protege as gentes que têm nas águas o seu sustento.
O drama de ’95 deixou marcas profundas em António Ratinho (como em tantos outros), que em pleno tempo de “Chagas” brinda a Vila com uma homenagem a esses homens engolidos pelo mar. “Depois do Antes o Agora” está patente na Fortaleza de Santiago, em Sesimbra e encerra as portas já no dia 4 de Maio.
“Sesimbra, como se sabe, sofre. Chora o que perdeu e receia o que há-de vir”, disse João Aldeia; “O Mar chora quando os Homens lhe tiram os Peixes mas os Peixes também choram porque os Homens lhe estragam o Mar”, disse o pescador Zé d’Alice. Um mundo de lágrimas, plastificadas, salgadas, a não perder!

Sabemos que nasceu em Sesimbra e que por aqui tem passado grande parte da sua vida. Como foi a sua infância nesta Vila?
A minha infância foi numa rua junto à Igreja, a Rua da Esperança, que vai parar junto ao cemitério e acaba no mar. Para mim, esta é uma das ruas mais bonitas de Sesimbra e a minha infância foi ligada a toda esta zona, onde vivi até há cerca de 25 anos atrás.

A Rua da Esperança foi a sua inspiração?
A palavra inspiração é muito complicada, pode-se aplicar ao romantismo, à poesia, à música, está tudo interligado… a inspiração pode vir mas tento não a ligar ao trabalho, que é a busca de uma ideia que nos está no cérebro e que temos de fazer brotar.

Há quanto tempo é que se dedica às artes?
Desde os meus 4, 5 anos que faço desenhos, mas exponho desde 1980, 81. As pessoas que sabiam que eu desenhava perguntavam-me “porque é que não expões?”, “porque é que não mostras?” e o mostrar é diferente… Aconteceu a pedido de muitas famílias!

O que é que mudou após a primeira exposição?
A primeira exposição esteve integrada no Festival do Mar, que decorreu em Sesimbra em 1980. Na altura, eu e um amigo meu (José Arsénio) participámos na mostra “Sesimbra e o Mar”. A partir daí, quase todos os anos faço uma exposição, apesar de ter parado num determinado período da vida em que tive um acidente de percurso. Tento fazer quase tudo em Sesimbra, tive ainda o convite para expor em Lisboa durante a Expo ‘98 - com a exposição que agora está nesta sala - e era para ter continuado com a mostra pelas zonas piscatórias do País, porque esta é uma exposição ligada ao Mar: o mar como vida, o mar como morte, o mar como sustento, como alimento para milhões de pessoas mas que por vezes também se revolta contra nós, que somos uns seres ínfimos em relação a si próprio.

“Nesse dia (em 1995) houve um barco que se afundou e cerca de 25 pescadores morreram, só um é que se salvou…”

“Depois do Antes o Agora” vem prestar homenagem aos pescadores de Sesimbra que morreram no mar em 1995. Fale-nos dessa tragédia…
Nesse dia houve um barco que se afundou e cerca de 25 pescadores morreram, só um é que se salvou… Toda a vida fiz peixes com todo o seu esplendor, com as escamas e tudo, mas a partir desse dia passei a olhar para o mar, para a Pesca, para os pescadores e para os barcos – especialmente para os barcos - de forma diferente. A construção de um barco, o formato e a estrutura são os de um peixe. Penso que se formos aos primórdios do barco, percebemos que ele advém do peixe e também nós temos essa estrutura, uma espinha dorsal, um centro. Tudo tem uma espinha dorsal: uma árvore, uma planta, uma folha, um prédio, tudo tem de ter a espinha de começo para se manter em pé.

A própria estrutura desta sala aproxima-se da de um barco…
Sim, a esta Exposição estou a tentar dar a ideia de um barco. Segundo o ponto de vista de muitas pessoas que passaram por aqui, consegui passar essa mensagem. Eu gosto de jogar com os espaços onde faço as coisas, não basta chegar e emoldurar um quadro, gosto que todo o espaço que nos rodeia seja conivente com o que se está a passar. A maioria das minhas exposições são temáticas, têm um princípio, um meio e um fim. Podem pensar que são coisas feitas à balda, mas tudo tem um sentido, incluindo o próprio título.

O que é que as pessoas podem esperar desta exposição?
A Exposição já percorreu vários locais desde o Estoril, a Cascais, Barcarena, Lisboa, Almada e esteve 2 vezes em Sesimbra. Parou porque tive um problema de saúde, mas a maior parte dos trabalhos estão junto a mim. Uns partiram da minha casa, outros foram comprados e estão agora no Japão, em França, na Inglaterra e por aí a fora…
As pessoas têm-se referido à junção do título e da sala, dizem que está fabulosa, que tem a ver com o espaço da Fortaleza e com a proximidade do mar.
De fundo ouvimos o som do oceano com baleias e golfinhos na sua própria linguagem, que descobrimos há muitos anos. É isso que acompanha esta Exposição, ela não é silenciosa, não consigo fazer exposições silenciosas em que a pessoa entra, como se estivesse num museu ou numa igreja.

Também utiliza um conjunto de antigas embalagens de telemóvel…
A esses objectos, como são transparentes, resolvi chamar-lhes “lágrimas plastificadas”. Em ‘97, ’98, apareceram os telemóveis em Portugal e os mais acessíveis vinham embalados em formato de cápsula, uma embalagem, que mais tarde seria lixo. Tentei juntar muitas, cerca de 80, o que foi complicado. Eu punha-me à porta dos hipermercados e pedia às pessoas que vinham de comprar se precisavam das embalagens, porque não podia andar à procura delas no lixo. Alguns ofereciam-me: “deve ser doidinho”, “mas leve”! Os telemóveis pertenciam à então Telecel, que chegou a ter conhecimento desta Exposição e que ainda me chegou a dar algumas caixas.
Estas cápsulas têm um pouco da transparência da água, têm um pouco de areia da praia com desenhos trabalhados por mim em ’97, ’98, tudo isso para ligar ao tema da Exposição “será que o Mar Chora e os Peixes?”, daí a luz da palavra das “lágrimas plastificadas”. Neste momento agradeço o convite feito pela Comissão de Festas do Senhor Jesus das Chagas, entretanto a Exposição continua a circular…

“Tive o privilégio de ter na minha mão, e nessa Exposição (Vi Vistas de Senhor), a coroa de espinhos que vinha na figura de Jesus quando ele apareceu na praia”

O que é que as Festas em honra de Jesus das Chagas representam para si?
O meu pai andou quase 80 anos no mar e nunca quis que eu fosse para lá. Como disse há pouco, passei a minha infância em Sesimbra e desde miúdo que nós, antes do 25 de Abril, éramos baptizados e tínhamos de receber a educação Católica, eu próprio fui sacristão até que aos 14 anos comecei a questionar a Religião.
O padroeiro dos pescadores de Sesimbra, o Senhor Jesus das Chagas, é uma história que conheço desde criança, de que sempre ouvi falar, penso até que nunca faltei a nenhuma procissão. Tenho 56 anos e creio que no dia 4 de Maio estou sempre em Sesimbra, tal como muitos sesimbrenses que estão fora, não são pescadores mas vêm cá nesse dia. É uma festa que toca muito, a história do porquê da procissão, do aparecimento da figura de Jesus em Sesimbra, remonta a mil quinhentos e picos, e será com certeza uma das mais antigas procissões que se fazem no País e sempre no mesmo dia.
Também já fiz uma exposição dedicada em exclusivo a Jesus das Chagas, em 1990, em que contei com o apoio de pescadores e da Igreja. Tive o privilégio de ter na minha mão, e nessa exposição, a coroa de espinhos que vinha na figura de Jesus quando ele apareceu na praia. Foi incrível, consegui criar um ambiente em que as pessoas entravam na sala, ajoelhava-se e começavam a rezar, como se aquilo fosse um templo. O ambiente entrava na alma de quem conhece, sente a história e tem uma relação próxima com Jesus. Lembro-me de um casal finlandês, nórdico, em que a senhora chorou na sala, ajoelhou-se, e perguntou porque é que eu tinha feito as pessoas sentirem tanto aquela história, aquela festa que se estava a passar…

Sente algum sentimento especial ao prestar homenagem a Sesimbra?
O ego fica satisfeito, eu nunca. Fiz exposições durante muitos anos, com o meu apoio, com meu patrocínio, desde o colar do cartaz ao passar boca a boca… Pela primeira vez tive um cartaz exposto na entrada da Fortaleza e gentilmente feito pela Câmara de Sesimbra.
Na década de ’80 fui entrevistado pela revista do Diário de Notícias e a entrevistadora, que não me conhecia, disse que eu era um amador, sem curso, sem percurso de educação pictórica ou artística, “mas o que está a mostrar é digno de apoio”. Para além do lato sentido da palavra, amador da Arte, aquele que ama, não sou um profissional e espero todos os dias continuar a aprender e a fazer coisas diferentes. Quem lê, quem vem, quem olha, quem escreve e quem fala comigo percebe que os meus trabalhos têm uma linha, uma dedada do Ratinho, uma ligação…
Felizmente tenho mãos, tenho olhos, tenho vontade de continuar. Agradeço terem-se lembrado de falar sobre mim, porque é muito complicado em Sesimbra os meios de Comunicação Social destacarem estas iniciativas. Assim vou vivendo, sobrevivendo – pior a partir de ontem, dia em que a minha vida mudou, mas essa será uma conversa futura…

Nova Morada, edição nº 346, 2 de Maio 2008
Bombeiros Voluntários
NOVO QUARTEL EM VIAS DE CONSTRUÇÃO

Cinco anos após a aprovação do projecto, o Quartel dos Bombeiros Voluntários da Quinta do Conde vai finalmente entrar em obras. Os contentores provisórios que ali estão instalados, de forma provisória, há cerca de 15 anos, vão dar lugar uma sede moderna e atractiva.

Fernando Gato preside a direcção dos Bombeiros Voluntários de Sesimbra há 11 anos, foi Comandante durante 23 e começou a carreira como aspirante, pouco antes de cumprir as 20 primaveras. Acedeu a falar ao Condense sobre as aspirações que o levaram a pertencer a uma corporação de Soldados da Paz que se destaca pela diferença e mostrou-se tranquilo em relação à época de fogos florestais que se aproxima. “Estamos preparados”, declarou.

O senhor Fernando Gato tem vindo a reinvindicar, publicamente, melhores condições para o Quartel na Quinta do Conde. Quais são as principais carências do espaço?
Nós estamos a utilizar umas instalações feitas em contentores. Ali funcionam serviços administrativos, há uma camarata feminina, outra masculina, tem uma sala polivalente para a secção de Saúde, uma espécie de bar para entretenimento e uma cozinha para os Bombeiros confeccionarem as suas refeições. Temos uma sede provisória que ali está há 14, 15 anos...

Quais são os meios que têm ao serviço da população da Quinta do Conde?
Temos 10 pessoas a trabalhar diariamente. Viaturas estão lá várias, mas as ambulâncias e os carros de fogo totalizam 13.

Passados anos de insistência, já conseguiram a aprovação do projecto de ampliação?
Apesar de termos o projecto de há 5 anos aprovado, ainda não tínhamos conseguido ir mais além e bati a todas as portas, Governo Civil, secretário de Estado, Câmara de Sesimbra...
Agora, parece que se avistou a luz ao fundo do túnel, com uns dinheiros Comunitários e em princípio a coisa vai avançar.

No que é que consiste o projecto?
Vamos construir um Quartel de Bombeiros com ‘parque-out’, instalações administrativas e tudo o que necessita. Vai ser um pouco mais pequeno do que este (o de Sesimbra) mas com o objectivo de mais tarde poder vir a ser ampliado. O local é o mesmo, porque o terreno é nosso.

Qual a previsão para o início das obras?
Queremos ver se começamos este ano ainda, após o Verão. A Câmara Municipal já disponibilizou uma verba de cerca de 7, 8 mil contos neste orçamento precisamente para isso.
Existe uma situação que me choca bastante, que é o de não ter qualquer apoio por parte da Quinta do Conde. Eu quero o melhor para a Quinta do Conde e não a diferencio de Sesimbra, mas o apoio da Junta de Freguesia tem sido muito precário. O ano passado deram-nos penso que 30 contos (150 euros) de subsídio, o que não é suficiente. Estamos sem vias de iniciar uma campanha para recolha de fundos.

Para quando a conclusão do novo Quartel?
No início de 2009 tem de estar pronto. Como vamos ter eleições, tanto faz Autárquicas como Legislativas, o processo acelera.

Em que valor está orçada a obra?
Há 5 anos custava 74 mil contos, mas com a inflação não sei quanto é que pode vir a custar...

Em que medida é que as restantes Juntas do Concelho apoiam os Bombeiros?
Através de subsídios relativamente pequenos porque também não têm poder financeiro.
A única situação que nos é favorável é o facto da Câmara Municipal nos atribuir um subsídio de cerca de 34 mil e oitocentos euros, que nos deixa mais desafogados.
O Estado também dá uma comparticipação. Dantes pagavam o subsídio de Segurança Social que era da responsabilidade da entidade patronal, davam subsídios de combustível, pagavam as licenças dos rádios, mas agora resolveram extinguir isso e optaram por dar um subsídio mensal que anda na volta dos 8 mil e seiscentos euros anuais.

“Há 14, 15 anos, deu-se um incêndio muito grande que começou nas Fontainhas, passou pela Herdade da Faria, pela Apostiça, pelas Mesquitas... andámos lá uma semana e eu nem sequer tinha carro de Comando, tinha de ir a pé, imagine!”

Já houve alguma situação em que deixassem de prestar socorro imediato na Quinta do conde por falta de meios?
Para termos viaturas temos de ter pessoas e para termos pessoas temos de ter viaturas. O socorro nunca foi deixado de prestar, por vezes pode demorar mais um pouco porque tem de sair de Sesimbra. As 3 ambulâncias que estão na Quinta do Conde podem não chegar se as coisas se complicarem, mas normalmente é sempre na hora.

Terminou o Inverno e as chuvas que chegaram a provocar inundações na Quinta do Conde. Conseguiram dar resposta aos apelos que chegaram?
Na altura das inundações mobilizámos os Bombeiros de Sesimbra para a Quinta do Conde, não tivémos qualquer problema...

Qual é o principal factor que está na origem deste género de acidentes?
As pessoas constroem as casas abaixo da linha de água e quando chove a água não corre para cima, corre para baixo (risos).

Voltada a página da chuva, entramos na época dos incêndios. Estão preparados para os receber?
Estamos preparados porque de há 3 anos a esta parte temos recebido um subsídio da Autoridade Nacional da Protecção Civil para manter aqui 17 homens a tempo inteiro. Para além disso, este ano assinámos um protocolo com a Câmara de Sesimbra para mais 7.
De momento não temos dificuldade em pôr na rua viaturas, a menos que seja um incêndio de grande envergadura, mas quando é assim, não há ninguém que chegue.

Dada a sua experiência como Bombeiro, o que é que está na origem da maioria dos fogos florestais?
Acima de tudo é a falta de cuidado e a mão criminosa.

Recorda-se da maior tragédia com que teve de lidar desde que está nos Bombeiros?
A maior tragédia foi há 14, 15 anos, um incêndio muito grande que se deu no Concelho de Sesimbra. Começou nas Fontainhas, passou pela Herdade da Faria, pela Apostiça, pelas Mesquitas... andámos lá uma semana e não tínhamos meios. Neste momento os meios são bastantes, posso mesmo dizer que suficientes, mas na altura foi muito complicado. Eu nem sequer tinha carro de Comando, tinha de ir a pé, imagine!

E na Quinta do Conde, recorda-se de algum episódio dramático?
Não, para além das cheias e das pessoas quererem assistência ao mesmo tempo não me recordo de nenhuma situação complicada.

“Penso que num futuro próximo a Associação Humanitária de Bombeiros da Quinta do Conde se devia juntar aos Bombeiros de Sesimbra, aparecerem para as eleições, serem incorporados numa lista com um elemento ou dois e trabalharmos em conjunto”

Ainda existem muitas crianças e adolescentes que tenham o sonho de ser soldados da Paz?
Ainda aparecem muitos jovens com vontade de ser Bombeiros, mas na minha opinião isso acontece porque não há emprego no Concelho de Sesimbra e as pessoas começam por ser Bombeiros voluntários, passados uns meses pedem para ganhar qualquer coisa e acabam por receber, porque todos precisamos...
Vou dando aqui emprego mas de resto, não vejo que as pessoas estejam muito inclinadas para se dedicar ao voluntariado. Isso é para mim, que sou reformado, gosto disto e ando aqui.

Para concluir, gostava de pedir uma opinião quanto à Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Quinta do Conde.
Aqui há muitos anos tive uma reunião, na Quinta do Conde, para discutir essa Associação e a conclusão a que cheguei foi a de que a Associação pretendia ficar com as instalações dos Bombeiros de Sesimbra, o que não é oportuno nem viável. O caminho por que eles têm caminhado não é o mais apropriado, existe uma Instituição sedeada na Quinta do Conde, que lhe presta socorro e que não o põe em causa. Para que uma Associação tenha um corpo de Bombeiros precisa de dinheiro e não acredito que ele exista.
O que penso que deveria ser feito era, num futuro próximo, eles juntarem-se aos Bombeiros de Sesimbra, aparecerem para as eleições, serem incorporados numa lista com um elemento ou dois e trabalharmos em conjunto.
É a união que faz a força, não a desunião.
Temos um caso próximo, o da Amora, que conseguiu uma corporação de Bombeiros porque o Seixal não tem capacidade de resposta. Eu posso-lhe dizer que vamos fazer serviço para o Seixal, para a Amora, para os Brejos de azeitão, para Azeitão, para as Cabanas, para zonas que não fazem parte da nossa área e aqui não precisamos de ninguém porque temos capacidade de resposta, a menos que haja para aí um sismo...

É por isso que fizeram um cartaz a dizer que são diferentes?
Sim, tenho pessoal que é diferente dos outros. Um ano fiz esse cartaz que dizia “Nós não somos como os outros, somos diferentes”. Somos diferentes porquê? Porque sou um presidente que fui comandante, fui Bombeiro, as pessoas conhecem-me, sou activo, tenho percepção das coisas, ajudo, dou conselhos, estou muito tempo no Quartel...
Esta é uma maneira diferente de actuar, no meu Concelho, onde for solicitado o socorro, eu estou lá, faço-o por amor à camisola e nem sequer recebo nada.

O Condense, edição nº 38, Maio 2008

21.4.08

Recolha de alimentos em Hipermercados na Quinta do Conde
PRESIDENTE ASSEGURA QUE POBREZA ESTÁ A AUMENTAR

“A precaridade na Quinta do Conde está a aumentar”. Quem o afirma é Augusto Duarte, presidente da Junta de Freguesia local, que aponta o desemprego e a doença como os grandes responsáveis pelo flagelo que afecta mais de 150 famílias que são actualmente apoiadas pelo Pólo do Banco Alimentar.

No passado fim-de-semana de 12 e 13 de Abril, o Pólo do Banco Alimentar da Quinta do Conde levou a cabo uma recolha de alimentos, junto às superfícies comerciais Modelo e Lidl, com o objectivo de os distribuir pelas famílias carenciadas da Vila. “A recolha foi excelente”, garantiu Augusto Duarte, que entre óleo e massas destacou os cerca de 300 kg de arroz angariados para apoiar as 350 pessoas que são ajudadas pela Junta. Salientando o forte apoio dado pelos jovens da Freguesia, Augusto Duarte garantiu que a distribuição começa hoje, dia 17.

O Pólo começou a funcionar há cerca de 2 anos, altura em que muitos populares se dirigiam ao gabinete de Segurança Social existente na sede da Junta a solicitar ajuda. Nessa altura, houve uma consciência quanto à carência efectiva da população e o edil apresentou uma candidatura para suportar os seus fregueses com alimentos oriundos do Pólo do Banco Alimentar de Palmela.

A centena de carenciados depressa triplicou e à necessidade de bens alimentícios foi acrescida a fatalidade dos medicamentos. “Temos muitos casos de pessoas com cerca de 50 anos que têm doenças graves e que precisam do apoio da Segurança Social”, explicou o presidente da Junta, que aguarda resposta à candidatura em que solicita um subsídio para comprar os medicamentos e entregá-los directamente às famílias.

“As carências são muitas” e para além dos escassos estrangeiros, entre eles brasileiros, a maior fatia de necessitados na Vila é de nacionalidade portuguesa.

Augusto Duarte recorda que “há 4 anos havia muito trabalho, muita construção civil que servia pais e filhos” que levavam rendimentos para casa. Hoje, “a precaridade a nível nacional aumentou muito” e na Quinta do Conde não foi excepção, “há muita falta de trabalho, até para os jovens”.

A grande esperança está, no entender do presidente, na Zona Industrial a constituir, “tem de haver alternativa no Concelho, temos de apostar forte para que estas oficinas e o comércio saiam da Vila e se criem postos de trabalho”.

Os interessados em beneficiar do apoio do Pólo Alimentar podem inscrever-se na Junta. Para tal, deverão ser recenseados na Quinta do Conde e apresentar o bilhete de identidade e cartão de Segurança Social.

As candidaturas serão então remetidas para Setúbal, seguindo-se uma inspecção e relatório que contabiliza o número de pessoas existente no agregado familiar para que os bens sejam distribuídos. Algumas famílias têm 5 a 6 filhos, outras 2 ou 3, “damos um xis de açúcar, de massas e de outros bens, quanto maior é o número de residentes na casa, maior é o apoio”.

Apoio Domiciliário a Idosos e Doentes

Até à data, só um idoso da Quinta do Conde beneficiou do novo serviço de apoio domiciliário promovido pela Junta de Freguesia.

Aprovado há alguns meses, o serviço precisa e merece ser divulgado. “Apoiamos idosos ou doentes que necessitem de trocar uma fechadura, uma lâmpada, uma torneira”, qualquer tarefa que apesar de simples se pode revelar complicada aos mais debilitados, “assumimos e vamos fazer o trabalho”, ficando os encargos à responsabilidade da Junta, afinal, “temos pessoal credenciado para isso”.

Os interessados podem ligar para o telefone 21 210 83 70 “e rapidamente estaremos na casa da pessoa”, concluiu o presidente.

Nova Morada, edição 345, 18 Abril 2008